《小花与丑恶》是巴西现代主义诗人 Carlos Drumond de Andrade 于 1945 年创作的作品,在 2016 年里约奥运会的开幕式上朗诵。
本次开幕式诗朗诵英文版的翻译来源于 Multitudinous Heart: Selected Poems 一书,译者是 Richard Zenith。
因为开幕式实际上只朗诵了部分选段,我已将其加粗斜体标示。
至于中文版嘛,自己上网查吧o(╯□╰)o
Nausea and the Flower
Bound by my class and some clothes,
I walk down the gray street dressed in white.
Dejections and goods for sale observe me.
Should I keep on until I’m nauseous?
Can I, without weapons, rebel?
Grimy eyes in the clock tower:
No, the time of full justice has not arrived.
It’s still a time of feces, bad poems, hallucinations, and waiting.
The hapless time and the hapless poet
merge in the same impasse.
In vain I try to explain myself: the walls are deaf.
Beneath the skin of words: ciphers and codes.
The sun cheers the sick and doesn’t renew them.
Things. Considered without emphasis, how sad things are.
And if I vomited this tedium over the city?
Forty years and not one problem
solved, nor even formulated.
Not one letter written or received.
The people are all going home.
They’re less free but carry newspapers
and spell out the world, knowing they’ve lost it.
How can I forgive the world’s crimes?
I took part in many. Others I concealed.
Some I found beautiful, and they were published.
Soothing crimes, which make life more bearable.
A daily ration of error, delivered at our door.
By ruthless milkmen of evil.
By ruthless bread boys of evil.
And if I set everything on fire, myself included?
They called the adolescent of 1918 an anarchist,
but my hatred is the best part of me.
Without it I’d be lost,
and with it I can give a few people a slight hope.
A flower has sprouted in the street!
Buses, streetcars, steel stream of traffic: steer clear!
A flower, still pale, has fooled
the police, it’s breaking through the asphalt.
Let’s have complete silence, halt all business in the shops,
I swear that a flower has been born.
Its color is uncertain.
It’s not showing its petals.
Its name isn’t in the books.
It’s ugly. But it really is a flower.
I sit down on the ground of the nation’s capital at five in the afternoon
and fondle with my fingers this precarious form.
Inland, over the mountains, thick clouds are gathering.
In the sea tiny white dots, panicked chickens, are moving.
It’s ugly. But it’s a flower. It broke the asphalt, tedium, disgust, and hatred.
P.S.最后一段的 broke 实际朗读的是 broke through。
英文版选自 Multitudinous Heart: Selected Poems
A Flor e a Náusea
Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?
Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.
Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.
Uma flor nasceu na rua!
Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
E soletram o mundo, sabendo que o perdem.
Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.
Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.
Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.
Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.